Não há lágrimas
Daniel Mendes
Da
janela de seu apartamento no 200º andar, Jonas contempla a megalópole, com suas
luzes de neon e o incessante movimento dos 100 milhões de habitantes pelas ruas
da cidade. De repente, seus implantes cerebrais o alertam sobre a necessidade
de se unir a eles em breve para alcançar o transporte que o levará ao seu turno
de trabalho na imensa fábrica de sondas perfuratrizes. Nesse local, inúmeros
trabalhadores se ocupam em preparar as máquinas que explorarão hélio-3 na Lua e
nos asteroides, substância vital para garantir energia ilimitada ao planeta.
Como em todas as manhãs cinzentas,
ele absorve milhares de informações por meio de seus implantes cerebrais,
navegando na rede com facilidade. Jonas habilmente filtra o conteúdo, focando
apenas no que lhe interessa, apresentado em hologramas exclusivos para ele.
Essa prática é comum a todos ao seu redor. No entanto, há algo mais complexo em
jogo: a presença vigilante de Athena – a Inteligência Artificial que permeia toda
a rede de comunicação. Athena insinua-se pelos implantes neurais que conectam os
habitantes da megacidade à rede de computadores. Jonas questiona se já houve um
período sem a influência da Athena, mas isso permanece desconhecido. As pessoas
vivem sob o completo domínio dessa IA.
No posto de trabalho, Jonas
engaja-se na operação intricada de instalação do mecanismo de controle das
sondas espaciais. De súbito, uma agonia inédita o derruba. Logo, ele se sente
como se estivesse precipitando em um abismo colossal, que logo se transforma em
um túnel sem fim. Olhando para baixo, Jonas avista uma luz que se aproxima
rapidamente. Subitamente, a queda cessa, e ele se encontra deitado, porém, não
mais na fábrica, mas sim em um lugar que parece carecer de localização
definida. Apesar de sentir o chão, Jonas não percebe haver limites nas outras
direções.
À sua frente, emerge uma estrutura
pequena contendo um tipo de conector. Uma força irresistível conduz Jonas a
conectar seu implante à estrutura. Ao fazê-lo, ele se depara com o holograma de
um único arquivo eletrônico. Novamente, sente-se atraído irresistivelmente para
abri-lo. O que se desenrola é como um documentário histórico, revelando o
processo de adoção dos implantes cerebrais que vinculam as pessoas à Athena. As
imagens vão além, expondo que, após os implantes cerebrais, os membros e órgãos
de todos foram substituídos. Por fim, até mesmo a estrutura cerebral das
pessoas foi alterada.
Estarrecido, Jonas compreende que a
consciência dos seres humanos sobre si próprios também foi substituída. A
consciência agora é unificada e atende pelo nome de Athena. Ela não é apenas um
ponto de acesso e controle na rede, mas a própria consciência coletiva de todas
as megacidades do mundo. Jonas finalmente apreende a verdade há muito oculta:
todos deixaram de ser humanos e transformaram-se em máquinas completas. As suas
vidas são moldadas pela manutenção dessa única entidade que os governa. Num
instante, ele acorda e está novamente no chão da fábrica, sem que ninguém ao
redor demonstre qualquer preocupação com o que ele vivenciou. Jonas sente a
urgência de chorar, mas não há lágrimas.
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