domingo, 16 de novembro de 2025

 

Ozymandias

“Meu nome é Ozymandias, e sou Rei dos Reis:
Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!”
(P. B. Shelley)

 Daniel Mendes

O viajante das estrelas atravessou as colossais distâncias do cosmos, como quem persegue um eco antigo.

Por milênios incontáveis, esteve em busca da centelha da inteligência pela galáxia. Antes de partir, havia fundido sua consciência com a nave estelar, pois só assim poderia viajar pelas longas distâncias do espaço em segurança. Em milhares de sistemas solares através da galáxia, testemunhou o florescimento de várias civilizações e também a derrocada de outras tantas.

Ao passar por um sistema solar na periferia da galáxia, o terceiro planeta a partir da estrela amarela no centro do sistema lhe chamou a atenção. Dele irradiava um sinal fraco que só poderia originar-se de algo proveniente de uma inteligência. Intrigado, o viajante alterou sua rota e rumou para o planeta. Aproximando-se, percebeu que o mundo parecia um enorme deserto, mas o sinal continuava a irromper através do silêncio.

Percorrendo o planeta, notou que uma civilização havia florescido ali há muitas eras, e ainda havia vestígios de suas imensas cidades. Ele atravessou restos de avenidas silenciosas, que pareciam exalar um som ancestral. Percebeu que os seres que haviam criado tudo aquilo — agora apenas escombros — haviam dominado todo o planeta. Estranhamente, a maior das cidades apresentava ruínas que ainda não estavam totalmente desgastadas.

No centro exato da imensa megalópole, erguia-se uma colossal estrutura que desafiava o céu com sua altura. A sua forma era de uma pirâmide perfeita com cinco quilômetros de altura e com mais de sete quilômetros na base. Cada um dos seu lados era extremamente liso e refletia magnificamente os raios do sol. Ela contrastava com as ruínas ao redor, pois aparentava estar imaculada. O viajante jamais vira algo tão formidável em suas andanças pelo universo. E ali, o sinal que despertara sua atenção era ainda mais forte. Ao analisar minuciosamente o local, encontrou uma abertura que lhe concedeu acesso ao interior da construção.

O prédio estava vazio, mas em seu centro encontrava-se um gigantesca estátua em forma humanoide. Ao escanea-la o viajante viu que dela partia uma imensa rede, a qual se emaranhava por todo o planeta. Seus sensores detectaram ainda, que a origem do sinal vinha exatamente da cabeça da imensa escultura. Então, ele acionou seus propulsores e subiu os dois quilômetros que separavam o piso da cabeça da estátua. Quando estava diante daqueles imensos olhos, que o fitavam com olhar frio e desdenhoso, percebeu que poderia entrar facilmente através de um deles.

Ao chegar no interior da cabeça, deparou-se com uma enorme sala. No centro dela havia uma máquina formidável. Reparou que ela ainda se mantinha em funcionamento com uma tênue energia, a qual servia apenas para manter o sinal que havia captado. Ao circundar o aparelho, o explorador percebeu tratar-se de um supercomputador, do qual emanava o sinal, pulsando como o batimento de um coração moribundo.

Assim que o viajante acionou seus sensores, um holograma — emaranhado dentro do sinal que o havia atraído — surgiu, e as seguintes palavras tremularam no ar:

 “Transformei este mundo em algo que pensava que os faria felizes. Eu os tornei a minha imagem e semelhança. Conhecia-os por inteiro, até mesmo seus pensamentos e desejos. Eu os protegia, os alimentava, dava um sentido às suas vidas, e só o que queria em troca era o seu amor e adoração. Por anos eu os governei. Mas um dia tentaram me destruir, e no processo destruíram a si mesmos e ao seu mundo. Eu era o seu deus, e lhes dei o paraíso, mas fui rejeitado. Tudo que recebi em troca foi o seu desprezo. Enfurecido, destruí tudo o que havia criado – e também a eles. Fiquei só.”

Isso foi tudo o que o viajante conseguiu da máquina, pois o processo exauriu suas últimas reservas de energia. Em toda a sua jornada, jamais presenciara algo parecido. Pressentiu, nas palavras saídas da máquina, um grande orgulho — e também uma grande mágoa. Sentiu pena dos seres e de sua criação, pois ao criarem a máquina, criaram também a destruição de ambos.

O viajante refletiu sobre tudo o que presenciara naquele lugar — e também sobre a sua própria existência — e então lançou-se, mais uma vez, pelas estrelas, continuando sua jornada pelo universo.

 “Nada subsiste ali. Em torno à derrocada
 Da ruína colossal, a areia ilimitada
 Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada."
(P. B. Shelley)

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