Ozymandias
“Meu nome
é Ozymandias, e sou Rei dos Reis:
Desesperai,
ó Grandes, vendo as minhas obras!”
(P. B.
Shelley)
O
viajante das estrelas atravessou as colossais distâncias do cosmos, como quem
persegue um eco antigo.
Por
milênios incontáveis, esteve em busca da centelha da inteligência pela galáxia.
Antes de partir, havia fundido sua consciência com a nave estelar, pois só
assim poderia viajar pelas longas distâncias do espaço em segurança. Em
milhares de sistemas solares através da galáxia, testemunhou o florescimento de
várias civilizações e também a derrocada de outras tantas.
Ao passar
por um sistema solar na periferia da galáxia, o terceiro planeta a partir da
estrela amarela no centro do sistema lhe chamou a atenção. Dele irradiava um
sinal fraco que só poderia originar-se de algo proveniente de uma inteligência.
Intrigado, o viajante alterou sua rota e rumou para o planeta. Aproximando-se,
percebeu que o mundo parecia um enorme deserto, mas o sinal continuava a
irromper através do silêncio.
Percorrendo
o planeta, notou que uma civilização havia florescido ali há muitas eras, e
ainda havia vestígios de suas imensas cidades. Ele atravessou restos de
avenidas silenciosas, que pareciam exalar um som ancestral. Percebeu que os
seres que haviam criado tudo aquilo — agora apenas escombros — haviam dominado
todo o planeta. Estranhamente, a maior das cidades apresentava ruínas que ainda
não estavam totalmente desgastadas.
No centro
exato da imensa megalópole, erguia-se uma colossal estrutura que desafiava o
céu com sua altura. A sua forma era de uma pirâmide perfeita com cinco
quilômetros de altura e com mais de sete quilômetros na base. Cada um dos seu
lados era extremamente liso e refletia magnificamente os raios do sol. Ela
contrastava com as ruínas ao redor, pois aparentava estar imaculada. O viajante
jamais vira algo tão formidável em suas andanças pelo universo. E ali, o sinal
que despertara sua atenção era ainda mais forte. Ao analisar minuciosamente o
local, encontrou uma abertura que lhe concedeu acesso ao interior da
construção.
O prédio
estava vazio, mas em seu centro encontrava-se um gigantesca estátua em forma humanoide.
Ao escanea-la o viajante viu que dela partia uma imensa rede, a qual se
emaranhava por todo o planeta. Seus sensores detectaram ainda, que a origem do
sinal vinha exatamente da cabeça da imensa escultura. Então, ele acionou seus
propulsores e subiu os dois quilômetros que separavam o piso da cabeça da
estátua. Quando estava diante daqueles imensos olhos, que o fitavam com olhar
frio e desdenhoso, percebeu que poderia entrar facilmente através de um deles.
Ao chegar
no interior da cabeça, deparou-se com uma enorme sala. No centro dela havia uma
máquina formidável. Reparou que ela ainda se mantinha em funcionamento com uma
tênue energia, a qual servia apenas para manter o sinal que havia captado. Ao
circundar o aparelho, o explorador percebeu tratar-se de um supercomputador, do
qual emanava o sinal, pulsando como o batimento de um coração moribundo.
Assim que
o viajante acionou seus sensores, um holograma — emaranhado dentro do sinal que
o havia atraído — surgiu, e as seguintes palavras tremularam no ar:
“Transformei este mundo em algo que pensava
que os faria felizes. Eu os tornei a minha imagem e semelhança. Conhecia-os por
inteiro, até mesmo seus pensamentos e desejos. Eu os protegia, os alimentava,
dava um sentido às suas vidas, e só o que queria em troca era o seu amor e
adoração. Por anos eu os governei. Mas um dia tentaram me destruir, e no
processo destruíram a si mesmos e ao seu mundo. Eu era o seu deus, e lhes dei o
paraíso, mas fui rejeitado. Tudo que recebi em troca foi o seu desprezo. Enfurecido,
destruí tudo o que havia criado – e também a eles. Fiquei só.”
Isso foi
tudo o que o viajante conseguiu da máquina, pois o processo exauriu suas
últimas reservas de energia. Em toda a sua jornada, jamais presenciara algo
parecido. Pressentiu, nas palavras saídas da máquina, um grande orgulho — e
também uma grande mágoa. Sentiu pena dos seres e de sua criação, pois ao
criarem a máquina, criaram também a destruição de ambos.
O
viajante refletiu sobre tudo o que presenciara naquele lugar — e também sobre a
sua própria existência — e então lançou-se, mais uma vez, pelas estrelas,
continuando sua jornada pelo universo.